ARTIGOS DA SBTD
 

 

3/7/2008 - Sensibilidade Pós-Operatória em Dentística Restauradora.

 

Thessia Bazhouni Bader Sab

 

Thessia Bazhouni Bader Sab
Especialista em Dentística UERJ
Mestre em Dentística UERJ
Auxiliar de Coordenação da Especialização de Dentística UERJ
Professora do Curso de Estética UERJ

Sensibilidade Pós-Operatória em Dentística Restauradora.

A sensibilidade pós-operatória caracteriza-se por ser uma resposta exagerada a um estímulo não nocivo após algum procedimento restaurador prévio, podendo em alguns casos apresentar sintomatologia espontânea.
Vários procedimentos clínicos realizados rotineiramente no consultório são passíveis de causar sensibilidade pós-operatória como, por exemplo, o aquecimento gerado durante preparo cavitário e a toxicidade dos materiais restauradores utilizados para preenchimento dos dentes preparados.
O que se deve ter em mente é que, toda vez que houver necessidade de uma intervenção restauradora, há necessidade também de se avaliar alguns fatores tais como:

Condição pulpar:
A condição pulpar é fator determinante e deve ser averiguada anteriormente à realização de qualquer procedimento restaurador para que se diminua o risco de sensibilidade pós-operatória. A avaliação radiográfica, a história restauradora prévia do dente, o relato de qualquer sintoma pelo paciente e os testes de vitalidade pulpar são ferramentas essenciais para saber se há vitalidade pulpar, inflamação ou infecção pulpar e se esta condição é reversível ou irreversível. Muitas vezes, dependendo do tipo de injúria sofrida pelo dente durante procedimento de preparo e restauração e se a condição pulpar deste mesmo dente é desfavorável, pode-se verificar a evolução da degeneração da polpa e, nesses casos, um tratamento endodôntico seria indicado.


Profundidade da cavidade:
Quanto mais rasa a cavidade preparada, maior quantidade de dentina remanescente haverá entre a parede pulpar do preparo e o teto da câmara pulpar. Esta espessura pode variar entre 3,0 e 5,0mm. Em cavidades rasas e médias há a manutenção do número de odontoblastos, pois estes sofrem mínima injúria durante o preparo e, pela quantidade considerável de espessura dentinária, mínima ou nenhuma difusão de produtos tóxicos ocorre em direção à polpa dental. Em cavidades profundas ou muito profundas observa-se que a espessura do remanescente dentinário é mínima, variando de 0,5 a 0,01mm. Nestas condições, a redução do número de odontoblastos pode chegar a aproximadamente 41% pela injúria sofrida durante preparo e pela difusão direta de produtos tóxicos em direção à polpa. Quanto maior o número de odontoblastos, maior será a capacidade de recuperação da polpa e produção de dentina reacional ou reparadora. Já as exposições pulpares exibem o grau máximo de injúria dos odontoblastos podendo reduzir o número destas células a 100%. Materiais protetores e indutores da formação de ponte dentinária devem ser escolhidos conforme idade do dente e capacidade metabólica da polpa em questão.


Permeabilidade dentinária:
Sabe-se que a dentina é um tecido heterogêneo. Os túbulos dentinários são encontrados em toda a sua extensão, da câmara pulpar à junção amelo-dentinária. Estima-se que haja em média 50.000 túbulos por mm2 próximo à polpa, 30.000 túbulos por mm2 no terço médio dentinário e 10.000 túbulos por mm2 próximo à junção amelo-dentinária. O diâmetro dos túbulos diminui pela deposição de minerais em sua periferia. Por este motivo os túbulos apresentam cerca de 4 micrometros de diâmetro próximo à superfície pulpar e 1 micrometro em sua periferia. As paredes dos túbulos são limitadas pela dentina peritubular enquanto a dentina localizada entre os túbulos é denominada intertubular. Dentro dos túbulos dentinários existe o fluido dentinário, prolongamentos odontoblásticos e terminações nervosas. A permeabilidade dentinária aumenta com a proximidade pulpar, uma vez que nesta região os túbulos apresentam maior diâmetro. Garberoglio & Brännströn (1976), observaram que a superfície da dentina próximo à junção amelo-dentinária tem 1% de sua área composta de canalículos dentinários; o meio da espessura da dentina, tem 10%, e próximo à polpa, tem 45%. As implicações clínicas desse fato são que, quando a dentina é removida, tanto mecanicamente pelo profissional como por processos patológicos, a dentina remanescente torna-se mais permeável porque apresenta canalículos com maior diâmetro, e a dentina torna-se mais fina, aumentando, assim, a difusão. Desse modo, escavações necessárias na dentina, aumentam o potencial de irritação da polpa por agentes químicos ou bacterianos.
Outra variável importante que afeta a permeabilidade dentinária é a superfície de área de dentina exposta. Pode-se exemplificar este fato comparando-se um preparo para uma restauração de coroa total, que removerá maior quantidade de esmalte e promoverá maior área de difusão, com uma pequena restauração oclusal onde uma menor porção de esmalte é removida.


Tipo e qualidade da dentina remanescente:
A espessura, o tipo e a qualidade da dentina remanescente entre o assoalho da cavidade e a polpa são fatores importantes na prevenção de reações pulpares decorrentes de procedimentos operatórios. A dentina tubular, pela ação hidrodinâmica do fluido contido em seu interior, possibilita o carreamento de substâncias para o interior da polpa. Caso estas substâncias apresentem algum grau de citotoxicidade, a possibilidade de haver sensibilidade pós-operatória passa a existir. A dentina esclerosada, por apresentar a peritubular aumentada e túbulos dentinários obstruídos, é mais resistente aos ácidos e à penetração de materiais protetores ou restauradores. Por outro lado, quando se está trabalhando sobre uma dentina afetada após remoção de tecido cariado, deve-se ter cuidado, pois esta é menos mineralizada e apresenta menor capacidade protetora.


Idade do dente:
O dente jovem apresenta uma câmara pulpar ampla e com isso menor espessura dentinária. O dente adulto, por outro lado, apresenta um menor volume pulpar pela maior quantidade de dentina produzida por estímulos fisiológicos ou por injúrias. A idade do dente deverá ser avaliada sempre antes de qualquer procedimento de preparo cavitário para que se consiga diminuir o risco de sensibilidade pós-operatória.


Materiais protetores:
Existem alguns materiais protetores do complexo dentino-pulpar utilizados rotineiramente na clínica odontológica como o hidróxido de cálcio, o ionômero de vidro e os sistemas adesivos a base de resina. Todos os materiais protetores deveriam apresentar características ideais tais como: ser bactericida e/ou bacteriostático; promover proteção contra estímulos térmicos e elétricos; ser anódino; reduzir infiltração marginal; ser biocompatível; promover um selamento dentinário eficaz; apresentar uma boa resistência mecânica e uma boa compatibilidade com os sistemas restauradores e ser estético. Infelizmente não existe um material protetor que apresente todas estas características. Deve-se então adequar a indicação clínica do material com o que ele apresenta de melhor em sua característica.

Procedimentos clínicos e a sensibilidade pós-operatória
Existem muitos procedimentos clínicos restauradores que podem vir a gerar sensibilidade pós-operatória. Cabe ao profissional de odontologia saber quais são os riscos e tentar trabalhar da maneira mais correta possível para que se evite o aparecimento da sensibilidade após a manipulação do dente.

Preparo Cavitário:
O calor gerado pela fricção da broca durante o preparo do dente, o tipo e a condição da broca selecionada para realizar o preparo, a velocidade empregada para o corte, a refrigeração da ponta ativa da broca e, finalmente, o tempo de duração do corte são fatores que, se não observados com cautela, podem gerar sensibilidade pós-operatória. Christensen em 2002 cita alguns cuidados a serem tomados durante o procedimento de corte da estrutura dental tais como o uso limitado de brocas para preparo e a verificação da concentricidade das canetas para que não seja aplicada sobre o dente uma vibração excessiva. Atenta para o fato de que quanto maior a velocidade de corte empregada, maior a produção de calor. Conclui que a velocidade adequada seria aquela suficiente para cortar o dente facilmente.


Procedimentos adesivos:
O tempo de aplicação do ácido fosfórico empregado como etapa na utilização dos sistemas adesivos convencionais, bem como sua concentração podem gerar sensibilidade pós-operatória. Uma vez colocado na superfície dentinária o ácido causa diferença no gradiente de concentração e, por osmose, verifica-se a saída do fluido dentinário do interior dos túbulos ativando as terminações nervosas e provocando a sensação dolorosa. Após aplicação do ácido, deve-se lavar abundantemente a superfície condicionada e remover o excesso de água com bastante critério para que não haja ressecamento da dentina, fato este que pode induzir também a saída do fluido dentinário. A aplicação dos agentes adesivos também deve ser feita com cuidado para que se espere o tempo necessário para evaporação do solvente presente na solução. O tempo de espera varia entre as marcas comerciais e normalmente está presente na bula do produto. Seguir o tempo recomendado pelo fabricante é a garantia de estar executando o procedimento da forma mais segura possível. Estes solventes juntamente com monômeros resinosos podem penetrar nos túbulos dentinários e atingir a polpa, causando inflamação pulpar por serem substâncias citotóxicas (TAY et. al., 2004). Christensen em 2002 e Perdigão, Geraldeli, e Hodges em 2003 afirmam que os adesivos autocondicionantes eliminam quase que totalmente a sensibilidade pós-operatória, pois possuem um ácido fraco que se neutraliza sem precisar ser removido com água. Nestes adesivos, à medida que há a desmineralização da dentina pelo ácido fraco, há a impregnação das fibras colágenas pela resina fluida não alterando o gradiente de concentração e, portanto, não gerando fluxo de fluido dentinário.


Restaurações diretas de resina:
Para confecção de restaurações em resina, deve-se ter em mente que o melhor substrato para adesão é o esmalte. Portanto seria ideal que o esmalte estivesse presente em todo o perímetro da cavidade (UNEMORI et. al., 2001). Deve-se restaurar sempre utilizando a técnica incremental. A colocação de incrementos de resina de até 2mm reduz a tendência de contração de polimerização a qual é indesejada pois pode ocasionar fendas marginais e deflecção das cúspides contribuindo, assim, para o aparecimento da sensibilidade pós-operatória (TANTBIROJN, 2004). O aparelho utilizado para polimerizar a resina também deverá gerar mínimo calor, pois é sabido que o aumento de temperatura da polpa em 6 graus pode resultar em morte pulpar (SARRETT, 2005). Finalmente, deve-se ter cuidado para não gerar aquecimento na utilização de brocas e pontas de borracha durante os procedimentos de acabamento e polimento da restauração. Tantbirojn em 2004 lembra que a profundidade cavitária nas restaurações de resina também é determinante no aparecimento da sensibilidade pós-operatória.


Restaurações diretas de amálgama:
Browning em 1997 tece algumas considerações sobre a sensibilidade pós-operatória em restaurações de amálgama. O autor enfatiza que o arredondamento dos ângulos internos do preparo é importante para diminuir os pontos de tensão gerados na dentina. Lembra também que há a necessidade da colocação de um material protetor que seja isolante térmico e elétrico nos casos de cavidades muito profundas a serem restauradas com amálgama. Compara o amálgama adesivo, que oferece menor sensibilidade, com o verniz cavitário que causa maior sensibilidade pós-operatória. Destaca a importância de não gerar aquecimento durante o polimento da restauração e lembra a expansão tardia que pode ocorrer em ligas que contêm zinco em sua composição.


Restaurações indiretas:
Além de todos os cuidados já citados que se deve ter em uma intervenção restauradora, o dente que receberá restauração indireta precisará de uma provisória para que esta consiga manter os contatos oclusais e proximais, além de também servir como isolante térmico e elétrico, manter a saúde do periodonto no término cervical do preparo e estar adequada estética e funcionalmente. Na etapa de moldagem do preparo, deve-se ter cuidado para não ressecar o dente durante os procedimentos de afastamento gengival e moldagem, o que poderia levar a um quadro de sensibilidade pós-operatória. Em cimentações de peças cerâmicas com cimentos resinosos, cuidado redobrado deve-se ter para as etapas de condicionamento ácido e aplicação do sistema adesivo no dente, tratamento interno da superfície cerâmica com ácido hidrofluorídrico e silano. Christensen em 2000 ressalta que a sensibilidade pós-cimentação de coroas totais pode ser atribuída à falha na obliteração dos canalículos dentinários após ataque ácido total. Segundo o autor, é recomendável utilizar sistemas adesivos autocondicionantes nestes casos.


Sensibilidade pós-clareamento
O clareamento dental é uma das técnicas mais executadas atualmente pelos dentistas. A sensibilidade pós-clareamento apresenta maior incidência na técnica de consultório uma vez que nesta são utilizados agentes clareadores mais concentrados, como o peróxido de hidrogênio a 30 e 35%, e o peróxido de carbamida a 22%, 35% e 37%. Sensibilidade também pode ser relatada em pacientes que optam por realizar o clareamento caseiro supervisionado pelo dentista. Normalmente os agentes clareadores utilizados nesta técnica são o peróxido de carbamida a 10, 16 e 22% e o peróxido de hidrogênio de 1 a 10%. Um dos efeitos colaterais do tratamento clareador pode envolver uma sensibilidade às alterações térmicas. Desse modo, o clareamento está contra-indicado para pacientes que apresentam sensibilidade térmica exacerbada, dentes com comprometimento pulpar, lesões de erosão/abrasão e abfração e pacientes com câmara pulpar ampla. Esta sensibilidade normalmente é transitória e dura enquanto o tratamento estiver sendo executado (SARRETT, 2002). Ela é atribuída ao fato de os clareadores "transitarem" com facilidade através do esmalte dental. O uso de agentes dessensibilizantes como o nitrato de potássio, oxalatos e fluoretos são eficazes na redução da sensibilidade e devem ser utilizados sempre que o paciente relatar este incômodo. Existem também no mercado pastas de dentes e enxaguatórios bucais que se propõem a reduzir este tipo de sensibilidade.

Para finalizar, deve-se sempre ter em mente que o diagnóstico preciso da sensibilidade pós-operatória é um desafio a ser alcançado. A sensibilidade de dentes trincados não pode ser confundida com a sensibilidade pós-operatória. Há atualmente grande incidência de dentes que exibem trincas, principalmente aqueles que apresentam restaurações antigas de amálgama e outros trincados por hábitos parafuncionais. Em ambos os casos, o dentista deverá estar apto a fazer o diagnóstico correto e conter a propagação destas trincas com restaurações indiretas que abracem as cúspides dos dentes.

Conclusões:
1- O conhecimento da natureza e fisiologia dos substratos, bem como dos materiais utilizados, é indispensável para que se realize uma odontologia mais científica do que artesanal, focada sempre no bem-estar do paciente;
2- Uma vez instalada a sensibilidade, devemos saber exatamente como proceder, em cada caso em especial, para que possamos erradicar o desconforto gerado de maneira segura;
3- Devemos avaliar com bastante cautela todos os procedimentos clínicos realizados, de maneira que possamos reduzir o aparecimento da sensibilidade pós-operatória.

 

Referências bibliográficas:
1- BROWNING, W.D. Reduction of postoperative pain: A double-blind, randomized clinical trial. JADA, Vol. 128, December 1997.
2- CHRISTENSEN, G.J. Avoiding pulpar death during fixed prosthodontic procedures. JADA, Vol.133, November 2002.
3- CHRISTENSEN, G.J. Preventing postoperative tooth sensitivity in Class I, II and V restorations. JADA, Vol. 133, February 2002.
4- CHRISTENSEN, G.J. Resin cements and postoperative sensitivity. JADA, Vol. 131, August 2000.
5- GARBEROGLIO, R.; BRÄNNSTRÖM, M. Scanning electron microscopic investigation of human dentinal tubules. Arch Oral Biol (1976) 21(6), 355-62.
6- PERDIGÃO, J; GERALDELI, S; HODGES, J.S. Total-etch versus self-etch adhesives: effect on postoperative sensitivity. JADA, Vol. 134, December 2003.
7- SARRETT, D.C. Clinical challenges and the relevance of materials testing for posterior composite restorations. Dental Materials (2005) 21, 9-20.
8- SARRETT, D.C.Tooth whitening today. JADA, Vol. 133, November 2002.
9- TANTBIROJN, D. Tooth deformation patterns in molars after composite restoration. Dental Materials (2004) 20, 535-542.
10- TAY, F.R., et. al. Single-bottle adhesives behave as permeable membranes after polymerization. Journal of Dentistry (2004) 32, 611-21.
11- UNEMORI, M. et. al. Composite resin restoration and postoperative sensitivity: clinical follow-up in an undergraduate program. Journal of Dentistry 29 (2001) 7-13.

 

 

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